Relatório policial sobre as claques de Lisboa alertava para ligações com a extrema-direita
Não existe "qualquer ligação entre a segurança na noite de Lisboa e os grupos organizados de adeptos" e a implicação de membros de claques a fenómenos de criminalidade e violência é "pontual e individual", sendo "menos preocupante do que no Porto". É este o cenário traçado ao PÚBLICO por João Paulo Saramago, chefe da Unidade Regional de Informações Desportivas (URID) da PSP, cuja função é precisamente estudar e acompanhar as claques dos clubes.Um relatório interno da PSP, elaborado em 2005, e divulgado pelo Jornal de Notícias em Abril passado, apontava para ligações entre algumas claques e grupos de extrema-direita. "A presença de skinheads ligados às ideologias de extrema-direita nas cla-
ques portuguesas passa, essencialmente, por uma forma de atingir os seus objectivos", dizia o relatório, alertando para o facto de "grande parte dos indivíduos que, em Portugal, se encontram referenciados por associação à extrema-direita não se identificavam com esta ideologia quando entraram para uma claque".
João Paulo Saramago diz, no entanto, que este é um cenário que já não é actual. "Não acredito que haja qualquer recrutamento de extrema--direita dentro das claques. Estamos atentos se isso acontecer, mas de momento não se verifica", defende o chefe da URID de Lisboa. Ainda assim, em Abril passado, a PJ deteve vários activistas de extrema-direita e alguns deles eram membros de claques de futebol, particularmente o Grupo 1143 constituído por adeptos do Sporting, ligado a Mário Machado, líder do grupo nacionalista Frente Nacional. "Perdeu visibilidade como grupo e temos notado a ausência de ocorrências como adeptos de risco", diz João Paulo Saramago sobre o Grupo 1143.
No relatório elaborado pelo Ponto Nacional de Informações de Futebol, uma estrutura da PSP que serve de ponto de ligação e de troca de dados com congéneres de outros países da
UE, foram também detectados elementos da extrema-direita em claques de Benfica, FC Porto, Académica, Boavista, Portimonense e Amora. Uma situação que é desvalorizada pela URID: "São adeptos que por acaso têm determinadas ideias", argumenta Saramago, para quem nas claques "pode haver ligações pontuais de alguns indivíduos ao mundo do crime, mas isso não está relacionado com o grupo organizado de adeptos".
Esta justificação é também dada pela URID quando são recordados episódios dos últimos anos, como a detenção, em Dezembro do ano passado, de um dirigente da claque benfiquista No Name Boys por tráfico de droga ou, em Outubro de 2003, de três elementos da mesma claque, por distribuição de estupefacientes, uso e porte de armas proibidas e substâncias explosivas. Saramago argumenta que as claques são actualmente "muito heterogéneas": "Há pessoas de todos os estratos sociais e idades. Desde pessoas licenciadas, com emprego estável, e quadros superiores até ao estivador. São uma representação da nossa sociedade".
Apesar do cenário traçado por Sa-
ramago, a URID, cujos elementos que acompanham as claques são co-
nhecidos como spotters, não têm estado isentos de problemas. No mês passado, foi publicada a morada do chefe da URID e fotos de agentes num blogue antipolícias, caso que está a ser investigado pelo Departamento de Investigação e Acção Penal. "É a primeira vez que isso acontece e não é representativo, porque esse blogue tem sete ou oito utilizadores, uma minoria, quando comparada com os milhares de adeptos com quem convivemos", desvaloriza Saramago.
Fonte: Público








