29 dezembro 2007

Sporting: ENTREVISTA - Rui Bacelar Meireles


- Soares Franco foi insultado pelas claques...

- Durante vários anos tive a responsabilidade de gestão das claques que conduziu à criação de um protocolo, actualmente suspenso. Sou favorável à existência de claques mas de acordo com um conjunto de regras e responsabilidades para ambas as partes. Mas sou completamente contra as reacções desencadeadas no jogo com o Louletano para a Taça de Portugal. As claques têm o direito à indignação mas a forma como o fizeram é condenável.

- Diz ser favorável à existência de claques...

- No caso do Sporting as claques têm sido a principal mola de incentivo para os jogadores, acompanham a equipa a todo o lado. Em tempos fiz-lhes um desafio, sem sucesso, para que se unissem e formassem uma só claque no topo sul. Seria a maior claque portuguesa que faria de Alvalade um autêntico inferno. Tenho esperança de que um dia isso venha a acontecer.


Entrevista completa... AQUI

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1ª Liga: DUXXI - Sporting 2-1 Paços de Ferreira


28 dezembro 2007

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26 dezembro 2007

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23 dezembro 2007

Futsal: DERBY DE EMOÇÕES - Sporting 4-0 Benfica


Super Dragões: FERNANDO MADUREIRA - "Macaco", o bom samaritano

Há nove anos ganhava mil euros por mês

Quando o tio morreu, em Setembro, Fernando Madureira "foi o primeiro a telefonar à prima". Há uns anos, quando ela "caiu", ele e a mulher foram "os primeiros" a abrir-lhe a porta. "Sem perguntas." O líder dos Super Dragões não é só bom primo. "É bom marido, bom filho, bom genro, bom pai", atesta a mulher, enquanto enrola o cabelo de Vitória, a filha mais nova de ambos. "O transtorno é quando saem estas notícias." Vitória ainda nem fez três anos, não percebe. Catarina conta nove, sabe ler as letras gordas que sobressaem nos quiosques. Ainda agora escreveu o jornal O Crime que "Macaco" - como lhe chamam por em pequeno andar sempre aos saltos - era um alvo tão aflito que até dormia no telhado de arma em punho. Dona Infância, a avó, ligou-lhe logo. "Que barbaridade." "Quem anda nesta guerra sabe que não tenho nada a ver com isto!", protesta ele.
Cresceu na Ribeira como "um queque" que tudo tinha. Jogava a bola no Ribeirense. Por volta dos 14 anos iniciou-se com os outros nas discotecas e quase todos os fins-de-semana armavam zaragata. Dali passaram para a claque. Há 14 anos, conheceu Sandra nos Super Dragões. "Já nessa altura, quando acontecia alguma coisa a polícia andava à procura do ruço". Ela está tranquila: a suspeição que sobre ele recai "vem de ser líder da claque e de uma fase que os Super Dragões tiveram". A do "partiam tudo". Só tem pena que "não falem nas acções de solidariedade - desde dar abrigo, dar de comer, pagar aparelhos".
De onde vem o dinheiro? Há nove anos, Fernando ganhava 200 contos (mil euros) como jogador de futebol (a última equipa que representou foi o Castelo da Maia) e Sandra menos nos Correios de Portugal. Fernando abandonou o relvado e decidiu tornar-se um profissional da claque. Não se arrependeu. "Indirectamente" ganha "muito dinheiro" com os Super Dragões. Com o merchandising, com os bilhetes, com as viagens, com a visibilidade. Em 2003 tornaram-
-se sócios da Indoor Soccer de Canelas, empresa que gere dois campos cobertos de futebol. Em 2005, abriu o 12, snack bar na marginal do Douro, em homenagem ao 12.º jogador, a claque. E este ano abriu
a Rocinha, no Cubo da Ribeira. "Não tenho
nada a esconder nem a temer".


Fonte: Público

Claques: PSP diz que só há casos pontuais de xenofobia

Relatório policial sobre as claques de Lisboa alertava para ligações com a extrema-direita

Não existe "qualquer ligação entre a segurança na noite de Lisboa e os grupos organizados de adeptos" e a implicação de membros de claques a fenómenos de criminalidade e violência é "pontual e individual", sendo "menos preocupante do que no Porto". É este o cenário traçado ao PÚBLICO por João Paulo Saramago, chefe da Unidade Regional de Informações Desportivas (URID) da PSP, cuja função é precisamente estudar e acompanhar as claques dos clubes.
Um relatório interno da PSP, elaborado em 2005, e divulgado pelo Jornal de Notícias em Abril passado, apontava para ligações entre algumas claques e grupos de extrema-direita. "A presença de skinheads ligados às ideologias de extrema-direita nas cla-
ques portuguesas passa, essencialmente, por uma forma de atingir os seus objectivos", dizia o relatório, alertando para o facto de "grande parte dos indivíduos que, em Portugal, se encontram referenciados por associação à extrema-direita não se identificavam com esta ideologia quando entraram para uma claque".
João Paulo Saramago diz, no entanto, que este é um cenário que já não é actual. "Não acredito que haja qualquer recrutamento de extrema--direita dentro das claques. Estamos atentos se isso acontecer, mas de momento não se verifica", defende o chefe da URID de Lisboa. Ainda assim, em Abril passado, a PJ deteve vários activistas de extrema-direita e alguns deles eram membros de claques de futebol, particularmente o Grupo 1143 constituído por adeptos do Sporting, ligado a Mário Machado, líder do grupo nacionalista Frente Nacional. "Perdeu visibilidade como grupo e temos notado a ausência de ocorrências como adeptos de risco", diz João Paulo Saramago sobre o Grupo 1143.
No relatório elaborado pelo Ponto Nacional de Informações de Futebol, uma estrutura da PSP que serve de ponto de ligação e de troca de dados com congéneres de outros países da
UE, foram também detectados elementos da extrema-direita em claques de Benfica, FC Porto, Académica, Boavista, Portimonense e Amora. Uma situação que é desvalorizada pela URID: "São adeptos que por acaso têm determinadas ideias", argumenta Saramago, para quem nas claques "pode haver ligações pontuais de alguns indivíduos ao mundo do crime, mas isso não está relacionado com o grupo organizado de adeptos".
Esta justificação é também dada pela URID quando são recordados episódios dos últimos anos, como a detenção, em Dezembro do ano passado, de um dirigente da claque benfiquista No Name Boys por tráfico de droga ou, em Outubro de 2003, de três elementos da mesma claque, por distribuição de estupefacientes, uso e porte de armas proibidas e substâncias explosivas. Saramago argumenta que as claques são actualmente "muito heterogéneas": "Há pessoas de todos os estratos sociais e idades. Desde pessoas licenciadas, com emprego estável, e quadros superiores até ao estivador. São uma representação da nossa sociedade".
Apesar do cenário traçado por Sa-
ramago, a URID, cujos elementos que acompanham as claques são co-
nhecidos como spotters, não têm estado isentos de problemas. No mês passado, foi publicada a morada do chefe da URID e fotos de agentes num blogue antipolícias, caso que está a ser investigado pelo Departamento de Investigação e Acção Penal. "É a primeira vez que isso acontece e não é representativo, porque esse blogue tem sete ou oito utilizadores, uma minoria, quando comparada com os milhares de adeptos com quem convivemos", desvaloriza Saramago.


Fonte: Público

FC Porto: SUPER DRAGÕES - Desvirtuada a natureza da claque


A direcção organizava viagens, vendia bilhetes, merchandising e não tinha sequer de ter contabilidade organizada

Doidos pelo FC do Porto, os seus fundadores só queriam "fazer do futebol uma festa". Não se identificavam com quem transformara os Dragões Azuis "num negócio": eram todos obrigados a vestir uma camisola com o logótipo da Sapataria Beleza. Criaram, a 30 de Novembro de 1986, os Super Dragões. De alguma forma, desvirtuou-se o espírito, admite o ex-presidente Rui Teixeira. Alimentada pelas dissidências dos Dragões Azuis, a claque cresceu "demasiado" depressa. Luís Américo tinha 16 anos, algum tempo depois da fundação, quando se converteu no primeiro presidente. Era um puto viciado em futebol. Resolveu acabar com as vantagens (50 por cento de desconto nos bilhetes, viagens de graça) que atraíam adeptos menos dispostos a sacrificar--se pelo clube. Com ele estava facilitado o acesso à Loja Azul - o pai era sócio do estabelecimento comercial especializado em produtos relacionados com o FC do Porto - e os Super Dragões sofreram novo impulso: até porque também cresciam as claques apoiantes dos clubes rivais e os portistas não queriam ficar atrás. Rui Teixeira assumiu a presidência no período mais conturbado da claque: 1995. Tinha então 18 anos. Não abandonou os "dragões" no fim do curso de Design, como fizera Américo. Manteve-se por ali. Durante os últimos anos assumiu uma liderança tripartida com Paulo Trilho e Fernando Madureira. Paulo Trilho foi em Outubro indiciado por supostas ligações a uma rede de contrabando de tabaco e contrafacção de vestuário. "Ele foi associado a isso apenas porque conhece uma pessoa que importa tabaco da China e que tinha alguns cheques pré-datados dele", acredita Teixeira. "Conhece-se muita gente. Há muita gente a bater à porta, se não houver capacidade de resistência é fácil cair na tentação", recorda Luís Américo, que se dava bem com Gonçalo Dias, fundador do No Name Boys que o ano passado foi detido por tráfico de droga. E abundam negócios paralelos nem sempre claros. Até há pouco a claque não estava legalizada. A direcção organizava viagens, vendia bilhetes, merchandising e não tinha sequer de ter contabilidade organizada, de pedir ou passar facturas, recorda Teixeira. Transformara-se numa espécie de empresa lucrativa.

Fonte: Público

FC Porto: CLAQUES - "Nos Super Dragões cabem os polícias e os ladrões"

Entre os 1200 a 1500 membros desta claque do FC Porto, há cerca de 40 envolvidos nos esquemas de segurança


Claques de futebol

César só tem 14 anos, mas não hesita um milésimo de segundo: "Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa". Não percebeu? Não haja cá confusões entre a maior claque do FC Porto, que ele integra, e os homens detidos no âmbito da operação Noite Branca, mesmo que a maior parte deles tenha algum tipo de laço com os Super Dragões.

O que o coração de César lhe grita não será uma evidência para qualquer mortal, a avaliar pelo que tem sido dito (ou escrito) por vários comentadores (ou colunistas). Mas é-o para Daniel Seabra - o antropólogo que fez um mestrado sobre os Super Dragões e está a ultimar o doutoramento sobre claques.

Impossível renegar os suspeitos de envolvimento nos homicídios "da noite do Porto", que estarão associados a tráfico de droga, contrabando de tabaco, fraude fiscal e contrafacção. Alguns frequentam os Super Dragões desde miúdos - embora sem regularidade nos últimos tempos. Na Ribeira, como enfatiza a canção de hip-hop Macaco Líder, "já se nasce dragão".

Lembra-se de 2 de Abril de 1995? Tijolos a voar, uma rapariga loura a provocar os adeptos do Guimarães? Pois essa é a mãe de Miguel Palavrinhas, o rapaz que andará a monte. Fernando Madureira, o líder da claque, viu crescer Miguel Palavrinhas, cresceu com Bruno "Pidá", Paulinho "Quinze Dias" e muitos outros que como ele, no início da década de 90, já não podiam entrar nas discotecas e viram "na claque uma solução para ocupar o tempo". Na sua autobiografia, agradece ao "núcleo duro", que fica "sempre" na sua "retaguarda". A começar por "Pidá".

Tirando os Super Dragões, o que é que César tem a ver com "Pidá"? "Nada. Nem sequer o conheço", retorque o miúdo. Nada ele, nada o amigo dele que trabalha numa fábrica, faz voluntariado numa associação juvenil e teme dar o nome - não vá alguém confundi-lo e rotulá-lo.

É por causa disto que Madureira tem um recado para colunistas como Pacheco Pereira: "Somos uma micro-sociedade. Tudo o que existe na sociedade existe nos Super Dragões". Polícias, ladrões, traficantes, toxicodependentes, seguranças, empresários da noite, estudantes, professores... "Não há filtro." O único requisito, ali, é ser ultra-adepto do FC Porto.

Os dados preliminares da tese de Daniel Seabra desfazem a ideia do adepto extraterrestre. Os dragões são quase todos rapazes (83,2 por cento), solteiros (75,6), que esperam um dia casar pelo civil (11,1) ou pela Igreja (52,5) e ter filhos (93,1). Com uma idade média de 25 anos, perto de metade identifica-se como estudante (22,9 do ensino superior) e 21,4 como empregado em rotinas não manuais de categoria inferior. Seguranças haverá uns 40 num universo de 1200 a 1500. O desemprego atinge 5,3 por cento.

Terá sido sempre assim? Há muito que Luís Américo, o primeiro presidente dos Super Dragões, não era incitado a pronunciar-se sobre a claque. Saiu há mais de dez anos. Na hora de iniciar vida profissional, o premiado chefe de cozinha fugiu dela como quem fosse de um psicotrópico. Não esquece, porém, que parte da "beleza" daquilo residia no seu carácter heterogéneo. Ali dentro cabiam "mendigos e filhos de presidentes das melhores empresas do Norte".


Depois da tempestade...

De onde vem esta identidade que tanto inquieta o operário? Após a época 1991-92, desataram a entrar na claque os "gaiatos" da Ribeira e eles "partiam tudo". Em 1995, o auge da confusão, "alguns batiam e roubavam o que lhes aparecia à frente". "Éramos muito jovens", desvaloriza Sandra Madureira, vincando o papel pacificador do marido. "Meia dúzia de nabos a comer meia dúzia de sandes e a sair sem pagar! Não sei o que é mais crime, se é isso ou os preços que praticam nas estações de serviço". Mas o que aconteceu na década de 90 já não era possível hoje, acredita Rui Teixeira, líder que antecedeu Fernando Madureira. Desde o final da década de 1990, a polícia tenta "tomar conta" do fenómeno, infiltrando até elementos na claque. Agora, esta claque, como as outras, "está muito controlada". Já raramente lhe é permitido parar nas áreas de serviço com comércio.

Seabra distingue os comportamentos delinquentes que "emergem" do grupo (como pequenos furtos, até para adquirir algum estatuto: "Se não roubas nada, és um nabo") dos que constituem uma "reprodução" do quotidiano de alguns membros ("aproveitam estar num grupo grande, o que lhes confere algum anonimato ou ilusão de anonimato" para cometer crimes como roubar ou vender droga). E parece-lhe mais interessante reflectir sobre as condições prevalecentes nalgumas zonas urbanas do que "lançar sobre a claque um estigma, que a inabilita para uma aceitação social plena".

Parte significativa dos membros da claque provém de contextos sociais desfavorecidos. Nesses contextos grassa um "elevado grau de tolerância à violência". E há uma "dimensão de territorialidade muito forte" - uma identificação profunda com um lugar, amiúde por oposição a outro lugar. Nem sempre a família é estruturada. Muitas crescem na rua, com os amigos. A escola diz-lhes pouco - 74 por cento reprovou pelo menos uma vez.

Diversos estudos mostram que se cristalizaram as relações entre os bairros e as prisões. O FC Porto, a claque, é só um ponto onde se cruzam. Mas dentro da claque também há "situações de privação objectiva". Quantas vezes Pedro, um motorista de 32 anos, já gastou o seu último dinheiro para ver o seu FC Porto? Vale que, na claque, outros valores se levantam - como a partilha, a amizade. Na final de Gelsenkirchen, em 2004, quando o FC Porto conquistou a Liga dos Campeões, viajou com "20 euros e dez bilhetes para vender a emigrantes" e conseguiu passar uma semana na Holanda.

Miséria à parte, "claque, neste momento, em Portugal, é uma palavra vómito", lamenta o investigador, que também é adepto. E isso, como repara Rui Teixeira, pode ter um efeito perverso. Pode afastar quem só quer apoiar o clube e atrair quem vê ali um meio favorável à reprodução do comportamento desviante que embala o seu quotidiano.


Fonte: Público